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sexta-feira, novembro 25, 2005

Minha experiência...


Fui estuprada.
(Isto não é um Conto - é uma realidade. Minha realidade. Este fato ocorreu entre minhas idas e vindas da casa de minha avó para a casa de minha mãe biológica.)

Aos 5 anos comecei ler. Lia tudo.Nada passava desapercebido a minha curiosidade.Víviamos num mundo a parte da Ditadura e das guerras que aconteciam longe de minha doce vida.
Em 1978, por já esta com 7 anos, fui encaminhada a uma Escola, o SESI, na divisa de Guaianases com Ferraz de Vasconcelos e vivi ali meses de aprendizado e felicidade.Nossa realidade era muito diferente de crianças que hoje tem esta idade.
Eu não entendia muita coisa,apesar de ter uma inteligência acima da média. Lembro - me das brincadeiras de roda e de pega - pega no pátio da Escola.Era uma vida simples de uma menina pobre, filha de trabalhador.
Saia todos os dias ao meio - dia e minha mãe ía nos buscar na escola,digo nós,porque meu irmão Eli,1 ano mais novo que eu, estava lá também.
Um dia, como numa comédia de erros, tudo aconteceu ao contrário.Minha mãe esqueceu a hora de ir nos buscar e a escola nos liberou,apesar de não haver ali nenhum responsável para nos apanhar.Ficamos no portão por mais ou menos 10 minutos, se muito.Esperando nossa mãe.As tias dos doces,que ficavam logo ali na frente não nootou nossa presença,mas os olos do mal estavam atentos a nós.
Um senhor, aparentando uns 50 anos aproximou - se de nós e disse que nosso tio Pedro tinha mandado ele nos apanhar na escola.Inocente, seguimos aquele homem.Ele andou horas conosco e depois, ficamos num descampado.Ele fez meu irmão procurar algo e ali, naquele lugar horrível,me estrupou.
Fiquei toda machucada,obviamente, apesar de na época já ter uma altura considerável ( 1.57m), tinha uma estrutura íntima de uma menina de 7 anos e não de uma mulher.Ele disse que se eu contasse para minha mãe,ninguém acreditaria em mim.Por certo diria que fora meu namoradinho.
Minha mãe não tinha muita paciência e temendo- a, escondi minha dor.
Confesso que de início, só doeu no corpo. As dores da alma e da mente originaram - se com o passar do tempo.Guardei este segredo por 10 anos.Mas um dia, ao assistir uma aula sobre o corpo humano, tomei consciência da violência que tinha sofrido.Entrei em crise e tive uma depressão. Tive um pricípio desmaio e fui levada por um amigo ao Hospital que tinha na Praça Getúli Vargas.Até aí eu pensasva que era virgem.
As pessoas não souberam o que aconteceu comigo.Até porque era uma coisa do passado.
O diretor da Escola (EMEF 25 de Janeiro ) chamou minha mãe para conversar comigo.Ele achava que se conversassemos tudo ía acabar bem.
Acho que só ele acreditou em mim.
Minha mãe - biológica, com quem não vivia desde muito nova -  ficou com aquele sorriso falso no rosto e aquela expressão imbecil de compreensão.
Em casa disse para meu pai que eu tinha dormido com meu namorado.
A situação ficou insustentável.
Minha vida tornou - se um inferno.
Analisando hoje, de forma adulta, percebo todos os erros que foram cometidos em relação a minha segurança, na época do ocorrido.E depois, os novos erros, na época em que surtei com este segredo.
Nunca entendi o que leva uma mãe a perder sua filha por horas e quando a encontra não fazer nehum tipo de exame físico.Eu era uma criança ameaçada.
Fui uma adolescente amarga.
COMO AGEM AS PESSOAS
Meu namoradinho acreditou que eu tivesse dormido com alguém e me deixou.Para ele,uma moça tinha que chegar ao casamento virgem.Imbecil!
E outros passaram e fugiram da mesma forma.
Minha família nega até hoje a existência do fato.
O problema é que tenho que contar para quem se relaciona comigo,porque as vezes surto e perco a confiança em todo mundo. A pessoa tem que saber o que causa isto tudo.Sou uma pessoa normal que foi estrupada na infância.
O problema hoje não é só meu.
É da comunidade.
As pessoas não percebem sua responsabilidade.
A pior agressão que sofro até hoje, não é a física.É a psicológica.
A falta de confiança depositada em mim, frente a algo que aconteceu quando eu tinha 5 anos.
Faço parte das estatística que reza que a maioria das vítimas não prestam queixa.
Se eu nem sabia o que tinha contecido comigo, como poderia saber que tinha o direito de prestar queixa.
Nada foi feito por mim.Naquele dia tomei banho sozinha,como nos outros.
Estou solteira até hoje.E estamos em 2005, estou com 34 anos. As pessoas ainda possuem diversos preconceitos.
E o pior de tudo, que estes poderiam ser combatidos com campanha válida e feroz contra a ignorância.
Tenho sonhos.
Sonhos que foram destruídos por um canalha que me fez sofrer estes anos todos.
Sonhos que foram parcialmente destruídos pela falta de compreensão de meus pais.Sonhos que aborto, cada vez que entro em parafusos.
Quero esclarecer que não sou louca.Só fico muito desiludida com minha solidão e as vezes faço cois que as pessoas acham errada.Eu não acho.
As vezes fico muito triste e choro.
Tem dias que preferia estar morta.
Uma vez ouvi uma pessoa dizer, num programa de Televisão, que o ex prefeito Paulo Maluf imortalizara a frase "Esta com desejo, estupra mais não mata".Digo apenas uma coisa.Ele não sabe o que é estupro.O estupro mata.
Eu sou uma morta viva.Sinto - me morta sempre que olho para o espelho.
Evito este inimigo, que mostra dentro de minha alma.Dele não consigo esquecer minha tristeza.
PS - Aconteceu comigo.Escrevi este depoimento,depois de ler alguns no blog da Ana Frank.Valeu Ana.
Elisabeth Lorena Alves

Um comentário:

  1. Oi Elizabeth,
    Já estava para desligar e dai resolvi dar uma passadinha e ler o seu blog. Que coisa terrivel, o pior é que acontece sempre e em toda parte. Meus filhos tem as vezes broncas de mim pois ou super desconfiada de tudo e de todos. Nunca passei por esta situacão e acredito que só quem passa é que pode entender, mas sofro por todas as pessoas que foram estrupadas pois sei que os danos psicologicos são terriveis. Aqui em casa quando vem algum amigo homem e principalmente quando bebem coloco a lotta na minha cama, juntinho comigo. Converso muito com ela desde de pequena para que tenha os olhos abertos pois pode acontecer a qualquer um. Meu marido acha que coloco grilos na cabecinha dela, mas o que fazer. sempre que estou em casa vou busca-la na escola.E uma pena que os homens ainda pensam desse jeito, pensei que fosse coisa do passado. Entendo que voce tenha dificuldade em confiar nas pessoas, completamente compreensivo.
    Um Abracão Beth

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