Adeus Millôr Fernandes!
Bem, as pessoas adoram criticar que blogueiros e outros participantes de redes sociais se pegam falando de quem nos deixa - falando bem, na maioria das vezes. Acho que se a gente malhar o pau nos que nos deixam, eles aceitem mais... Mas eu não falar de Millôr Fernandes é no mínimo ridículo, amo suas crônicas, como amo Stanislaw Ponte Preta, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Sinclair. Todos estes fizeram parte de minha alfabetização na infância e na vida adulta, pois depois de aprender a ler, aprendi entender a Poesia. Poesia esta que há em qualquer texto bem escrito, mesmo que seja ferino como muitas vezes era
Millôr.
Hoje posto aqui
ctrl+c e ctrl+v claro, o texto Música, divina música, deste cronista maravilhoso, deste educador e crítico político que fará falta a nós e nossos filhos, pois poucos foram os que tiveram acesso a ele em vida e neste país sem memória, poucos conhecerão sua destreza com a nossa Língua.
Meus sentimentos, neste país que cada dia fica sem História!
Biografia
Tanto duvidaram dele, da teoria daquele jovem gênio musical, que ele resolveu provar pra si mesmo, empiricamente, a teoria de que não existem animais selvagens. Que os animais são tão ou mais sensíveis do que os seres humanos. E que são sensíveis sobretudo ao envolvimento da música, quando esta é competentemente interpretada.
Por isso, uma noite, esgueirou-se sozinho pra dentro do Jardim Zoológico da cidade e, silenciosamente, se aproximou da jaula dos orangotangos. Começou a tocar baixinho, bem suave, a sua magnífica flauta doce, ao mesmo tempo em que abria a porta da jaula. Os macacões quase que não pestanejaram. Se moveram devagarinho, fascinados, apenas pra se aproximar mais do músico e do som.
O músico continuou as volutas de sua fantasia musical enquanto abria a jaula dos leões. Os leões, também hipnotizados, foram saindo, pé ante pé, com o respeito que só têm os grandes aficionados da música. E assim a flauta continuou soando no meio da noite, mágica e sedutora, enquanto o gênio ia abrindo jaula após jaula e os animais o acompanhavam, definitivamente seduzidos, como ele previra.
Uma lua enorme, de prata e ouro, iluminava os jacarés, elefantes, cobras, onças, tudo quanto é animal de Deus ali reunido, envolvidos na sinfonia improvisada no meio das árvores. Até que o músico, sempre tocando, abriu a última jaula do último animal - um tigre.
Que, mal viu a porta aberta, saltou sobre ele, engolindo músico e música - e flauta doce de quebra. Os bichos todos deram um oh! de consternação. A onça, chocada, exprimiu o espanto e a revolta de todos:
- Mas, tigre, era um músico estupendo, uma música sublime! Por que você fez isso? E o tigre, colocando as patas em concha nas orelhas, perguntou:
- Ahn? O quê, o quê? Fala mais alto, pô!
MORAL: OS ANIMAIS TAMBÉM TÊM DEFICIÊNCIAS HUMANAS.
Millor Fernandes