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quarta-feira, março 15, 2017

Pássaro Azul - Regina Ruth Rincon Caires

Semana que passou recebi de presente dois textos. Pássaro Azul e Estrangeiro. A autora?
  Regina Ruth Rincon Caires.
E o que eu achei deles?
Belíssimos. Ambos entrarão para minha plataforma de aula social. Mas hoje vou falar do primeiro.

Pássaro Azul


Pássaro Azul é um relato, com narrador padrão na terceira pessoa e, no entanto, o texto deixa tanto à interpretação do leitor. Abusa da forma escrita elaborada, mas tem um vocabulário acessível, amplo. A repetição do verbo girar, no infinitivo, em uma das frases abre a interpretação extratextual e abarca outros termos já citados no texto: desconforto; invasiva claridade; holofote; desconforto;  descompasso.  A palavra diferente, separada em sílabas, estabelece uma comunicação com um sofrimento e logo depois a autora apresenta o Estigma, e o faz em força de sentido, dando voz e personalidade a ele:  palavra Estigma. E aqui podemos nos lembrar que normalidade é um fenômeno criado pelo homem e que por ela, estabelecemos valores de superioridade e inferioridade:

[...] Somos nós (os normais) que construímos as teorias sobre o estigma,  elaboramos uma ideologia que justifica a inferioridade do outro, baseada na idéia que representam para a sociedade. Muitas vezes essas teorias representam racionalizações de animosidadades, baseadas em diferenças como aquelas de classe social”(GOFFMAN, Irving, Estigma, p.5).

Ao apresentar o termo codinome, Regina grava com fogo algo doloroso nos olhos e pele do leitor e reforça a ideia do Estigma, como apresentada no fragmento acima. E continua construindo seu campo de significados com frases como: ecoou nos pensamentos; inocentes nove anos; reiteradamente dita. O texto, sem apresentação externa, já mostra a dor que esse narrador apresenta, e,  que essa dor pertence à um Universo específico. Ao entender de que se trata, ele se torna um hino, uma voz que representa o universo Azul, posto no título do Conto.

De forma  simples, a autora leva seu narrador a fazer redundâncias perfeitas, dando uma veste de poesia ao seu texto. Só que se engana quem crê que ela introduz esse recurso poético como uma marca estilística. Ela ainda está reforçando o campo semântico ao dizer os dois conjuntos  sequenciais: lábios/falavam; olhos/fitavam. E então ela quebra, fazendo um retorno ao tema do estranho: gestos de espanto/ dirigiam. E, é quando ela engana o leitor, apresentando-lhe uma verdade incômoda, que está ali o tempo todo: "E, ironicamente, ele não falava. Ouvia silenciosamente, mudo." 
Essa ironia ela coloca o tempo todo. Quando começa falar que os brinquedos giram no ar, ela apresenta carros e trens, objetos da terra. A criança que gosta tanto de girar e voar, não encontra no texto nenhum objeto do ar. Falta-lhe aeronaves, pipas, balões e afins.  Tudo gira, não voa. É uma busca incessante de liberdade, que no ambiente de casa, dá sempre no mesmo lugar, por isso gira, é cíclico.
Ele só é livre à beira do precipício, quando observa, ansioso, o voar dos pássaros, que descem, sem mover as asas rumo ao chão e quando próximos da terra, abrem-nas e sobem em um voo que maravilha a criança. Incrivelmente é a figura paterna que lhe permite esses momentos de prazer e que também os interrompem. E a entrada do menino ao mundo, mais uma vez é um retorno incomodo, como foi o nascer: confuso; complicado; incômodos,  são as palavras que permeiam o instante do retorno. 
O ensaio para a liberdade é um exercício indolor de contínua vivência. E o final, surpreendente, suspenso e real.
Um texto magnífico para falar de uma situação que aflige muitas famílias: o Autismo.
Ao ler, percebemos a dor de quem vive, de quem é e de quem conhece um autista e não sabe como chegar de fato a ele. Retrata as dificuldades diárias dos dois lados, sem florear uma realidade desgastante. Texto excelente. 
Indico a todos.  

SERVIÇOS
Em breve em uma livraria próxima de você. O texto faz parte de uma Antologia.

PS. Ainda vou montar um plano de aula sobre ele.
PS. 2. Texto será utilizado por outra professora, aqui de Manaus, com Ensino Fundamental e Médio.

segunda-feira, abril 02, 2012

Autismo - Blogagem Coletiva


Autismo
Poucos meses se passaram desde que falei aqui e aqui de um garoto (Diego) que tem autismo. Era uma criança espetacular e eu tinha extremo carinho por ele. Por causa de seu temperamento agitado, acabava isolando-se dos demais alunos da EEI Philadelphia, onde eu trabalhava como Secretária Executiva e, eventualmente, como assessora da Diretora Marluce. Na verdade eu era funcionária do CIJ – Centro Interescolar da Juventude, que dirigia diversas atividades, inclusive a EEI.
Nestas horas ele acabava indo parar em minha sala e ali perambulava entre ver livros e assistir algo por míseros segundos. Ele realmente não parava quieto. E aí se corresse! Tinha uma agilidade nas pernas que duvido que os grandes corredores da São Silvestre ousassem enfrentá-lo.
Hoje todos falam sobre o Autismo e instituiu-se que a Cor Azul representa a Luta desta doença, que ninguém conhece a causa, embora atribua a fatores genéticos diversos.
Eu me pergunto se as famílias conseguem entender esta doença que limita tanto seus filhos e que muitas das vezes nem mesmo é diagnosticada. Conheço diversos casos em que não houve um diagnóstico e acho que isto é mais desrespeito com a pessoa e não falta de conhecimento dos profissionais.
Já disse que muitas vezes, mesmo não tendo estudado tanto, consigo descobrir o que impede algumas crianças de obedecer aos pais e professores. Acredito que na verdade até algumas crianças ditas normais, são na verdade portadoras deste distúrbios e não simplesmente hiperativas como são fechados seus diagnósticos.
Conheço um guri, vou chamá-lo de Félix para manter sua identidade, ele é muito ativo, seus pés parecem que não tocam o chão, é a criança certa para ser criada em grandes fazendas, correndo atrás de pipa, soltando pião e caçando cobras. Sei que se vivesse em uma ambiente assim ele teria aprendido a ler aos 6 anos e não aos 9, como aconteceu com ele. Lembro dele jogado em minha cama, com os pés para fora para não sujar – era o máximo que ele entendia – se o assunto lhe interessasse ele parava e aprendia. Aprendeu a ler por causa da Fotossíntese, ficou encantado com o processo de respiração das plantas. Depois, encantou-se com os estados da água, mas na Escola a professora insistia em ensinar-lhe fazer cobrinha e pauzinho e somar 2 mais 2. Ele simplesmente odiava ela. Mas este sentimento negativo era justamente dada a cobrança dela de ele acompanhar a turma em algo que ele considera chato e inútil.
Na verdade as crianças acima da média não toleram os professores limitados, eles só não tem argumentos para explicar isto aos pais – que geralmente são tão tacanhos como os profissionais que lidam com seus filhos. E para surpresa de alguns, muitos autistas são crianças acima da média, tem dificuldades sim de expressar-se e outras mais sérias, só que se destacam em algumas atividades de forma especial. O problema é que as pessoas que cuidam delas, por profissão, não sabem entendê-las e esta é uma dificuldade sem solução, pois não são todos os pais que conseguem entender as necessidades destes filhos.
Sabe, certas pessoas precisam entender que algumas profissões são ministérios de amor, você só pode entrar para uma profissão de formar pessoas, recuperar a saúde ou reabilitá-las se tiver amor ao objeto de seu trabalho: Pessoas. Infelizmente não é isto que vemos na maioria de profissionais no Mercado de Trabalho. Digo isto porque até no setor privado existem profissionais relapsos e pouco preocupados com o resultado final de seu trabalho.
Claro que reconheço que a falta de respeito que eles sofrem por parte dos governantes e chefes acabam vitimando o animo, mas acredito que aqueles que realmente amam o que faz acabam dando um jeito de dar continuidade a sua luta e conseguem sim alcançar os seus objetivos: cuidar de pessoas.
Admiro esta postura de alguns profissionais que incentivam as famílias a cuidarem com amor de seus filhos autistas.
Sei que muitos destes pacientes acabam encontrando um modo mais leve de viver em paz, rodeado de amor.
Torço para que este sucesso chegue aos demais portadores desta Síndrome.

PS. Os grandes monumentos do Brasil e do mundo estarão hoje cobertos por luzes azuis. Assim que conseguir algumas fotos, posto.
PS 2.  Teatro Amazonas iluminado e Cristo Redentor no Corcovado também iluminado em azul pela passagem do dia do Autista.

IP Casa de Oração - Rua Moreira Neto, 283 - Guaianases - São Paulo

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Gióa Júnior