Mostrando postagens com marcador Escrita Feminina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escrita Feminina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, maio 06, 2021

Velas, por quem? - Maria Lúcia Medeiros

 Olá! 



Faz tempo que não posto na Tag Vozes Femininas aqui no blog, mas não tinha tido tempo de pensar em uma autora que mexesse comigo de verdade. Agora vou me obrigar a esse tempo. Vou publicar ao menos um conto de MLM - Maria Lúcia Medeiros, escritora paraense que é um primor de autora e de mulher, suas marcas, deixadas na Literatura e na história das mulheres são importantes e devem ser lançadas ao mundo. 

Vou começar com "Velas, por quem?, de seu livro "Antologia de Contos", de 2011, portanto póstumo, já que ela que nasceu em 1942, nos deixou em 2005.  

O texto que lhes comparto hoje é muito significativo. Espero que gostem dele e o sintam como eu senti. 
E se quiser falar sobre ele sabem que podem me procurar em todas as minhas redes sociais. 

Agora vamos vê-lo:



VELAS. POR QUEM?¹


     Fatal foi teres chegado de manhãzinha, teus olhos de sono, quando ainda a cidade se espreguiçava e teres visto o casario, as ruelas tortuosas, os homens a gritar nomes e coisas. O cheiro do café e o cheiro das frutas, o abafado cheiro das roupas a entranhar na tua descrença a resina, o último cheiro do abraço que deixaras dias atrás entre o espanto e a euforia. Fatal foi a má comparação que fizeste das velas de encardido colorido com o tecido que mal escondia teus pudores. Tuas unhas entre o roxo e o vermelho copiaste de onde? Ao saltares dessas águas barrentas, ao abandonares sem saudade, rápido se perdeu o teu barco entre os tantos aportados naquele cais. Fatal foi tropeçares e seguires aos solavancos pelas ruas achando que eram de boas‐vindas os olhares. Ao pé do casarão mal iluminado fatal foi pensares que ofereciam vida nova, pois ouviste os sinos.

      A família dormia ainda. Soubeste logo que havia menino, que havia menina, um doutor e sua mulher a quem devias servir, branca e alta mulher.

     Mas te alimentaram antes, botaram à tua frente o pão que molhaste cuidadosamente no café preto para não acordar a tua eterna dor de dentes. Fatal foi ignorares os deveres tantos que ressoavam nas campainhas pelo casarão inteiro e pudeste rir, sorrir e te alegrar tantas eram as correrias, o leiteiro, o padeiro, o telefone... Pela janelinha lá do sótão era possível ver o rio, os pombos em revoada pelos telhados e até dizias “chô bacurau, chô bicho” e rias do teu próprio riso doido doido, e te apoiavas ora num pé ora no outro.

     Mas ao ouvir a voz “Ó pequena”, desabalada era tua carreira pelas escadas, era a hora de retirar o urinol de porcelana com a urina da branca senhora que um dia ficou roxa porque te pegou dizendo “péra lá que eu vou tirá o mijo da mulhé” e te trancou e quase te esmagou na porta para que consertasses a língua, Ó pequena! Terias que dizer “fazer o meu serviço, cumprir minha obrigação” aprendeste logo sem compreender.

     Fatal foi também isso, aprenderes rápido feito cachorro do sítio, e sair com o rabo entre as pernas repetindo “sim, senhora”.

     Mas havia o sótão e a janelinha e o pedaço de rio, as velas encardidas, o sino das igrejas e as mil e uma vezes que te benzias, mão direita mão esquerda?

   Da janelinha era possível ver se a chuva ia cair já, se não ia, se dava pra menina sair, pro menino brincar, fazias até a tua mágica de dar um nó na barra de tua saia e paravas a chuva, ora se paravas, Ó pequena!

    Nem cor definida nem peitos tinhas, só os carocinhos que doíam e que a cozinheira te ensinou a apertar dois caroços de milho e dar pro galo para que não crescessem tanto. Mas cresceram e logo o doutor e logo o menino, horário estranho, pesada hora, apertavam também, bolinavam, teu corpo ereto, tua cabeça baixa, coração aos pulos. Virou hábito deles, ficou pra costume, nem ousaste compreender, só aprender, Ó pequena!

    Fatal foi tua ligeireza, o trabalho na roça, o leite de cabra que bebeste em tenra idade lá de onde aportaste um dia numa sonolenta manhã.

    Com pouco já ninguém podia passar sem ti sendo pedaço deles, cria, cachorro fiel, Ó boa pequena! Nem cresceste tanto, alargaste sim, pernas rijas, braços fortes e com pouco já morria o doutor, já envelhecia a senhora, já casava a menina e já trocavas de mão e de patrão, pois a menina agora já era a mulher branca e perfumada que também enchia de urina o urinol de porcelana.

    Pras histórias que me contas desses mil novecentos e poucos, fatal foi tua mansidão de bicho: o búfalo, a corsa e o cão. Diante da mão espalmada, retorno ao meu ofício e aceito ler teu destino mas, te adianto, não vejo mais ‐ pesada hora ‐ rastro sequer de fortuna, perdeu‐se a do coração.



    Cheia de pejo e de dó vou te esconder, Ó senhora, que fatal foi te roubarem a linha da vida. 

¹ MEDEIROS, Maria Lúcia. Velas. Por quem?. Belém: CEJUP, 1990, p. 11 ‐ 13.

Serviços
Vou ficar devendo, por enquanto, porque não achei o livro completo nem para comprar físico, nem digital.
Abraços e vou-me embora para Pasárgada, ops, para a cozinha. 

domingo, março 29, 2020

Pensei em Cecília Meireles - E "Motivo" é uma poesia que me seduz...



Tem dias que amanheço assim, pensando em Poesia apesar das dores da reabilitação.
E entre lágrimas, risos e um copo de água, as palavras me abraçam, principalmente neste momento em que abraçar se tornou algo perigoso. Então, ser abraçada por Cecília Meireles é maravilhoso!
Trouxe para você ler comigo.
"Bora lá?"



 Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada
.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Literatura Feminina e Guaianases - A Mulher do Telegrafista


O texto abaixo é de José de Souza Martins.
Foi postado anteriormente na Folha de São Paulo. E trata de uma moradora antiga de Guaianases. Entra nessa postagem a ideia de mostrar as Mulheres da Literatura que foram esquecida com o tempo e nunca são citadas em livros didáticos.
Francisca Júlia, além de poetisa, ligada ao Simbolismo e Parnasianismo, foi a percursora da Literatura Infantil Brasileira, Sua influência didática foi muito importante para a formação literária básica de muitos jovens do Ensino Público e Privado. Por isso só ela já não poderia ser esquecida, porém, com o tempo seu nome foi caindo no ostracismo.
Em uma reunião acadêmica ao ser citada, algumas pessoas começaram discutir que sobre sua vida pessoal e sua morte e que por essa ter acontecido no mesmo dia que a de seu marido, mostrava a sua fraqueza de espírito. Isso em um ambiente de estudo da Empatia e Sororidade. Sua Depressão advinda do fato de viver com um homem doente - tuberculoso, não foi sequer levada em consideração. E, pior, esse não deveria ser um motivo para o afastamento de seu nome das discussões da importância feminina.
Sem vaidades intelectual, Francisca Júlia negou-se a entrar para a Academia de Letras. O fato da não aceitação não elimina sua conquista. 
Ainda falaremos dela por aqui...
Abraços e fique com essa bela escrita do Professor José de Souza Martins.


Publicado em O Estado de S. Paulo [Caderno Metrópole],
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011, p. C6.


A mulher do telegrafista



                                                       Victor Brecheret, “Musa impassível”

Em 1909, Francisca Júlia da Silva, com 38 anos, nascida em Xiririca, hoje Eldorado Paulista, casou-se na capela do Lajeado com Filadelfo Edmundo Munster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lajeado era o que veio a ser Guaianases, um lugarejo que devia o nome à imensa pedreira de onde era retirada a brita para forrar os dormentes da ferrovia. Francisca Júlia fora para o Lajeado quando sua mãe, professora primária, em outubro de 1908, recebeu transferência de Cabreúva para lá. Foi padrinho da noiva o poeta Vicente de Carvalho. Noiva que em Cabreúva fora professora de piano e que tivera como aluno Erotides de Campos, então com 10 anos de idade. Ele viria a ser o prodigioso autor de composições como a lindíssima “Ave Maria”. Da desilusão de um frustrado noivado em Cabreúva, Francisca Júlia carregou até quase o fim da vida o alcoolismo.
Pouco tempo antes do casamento com o telegrafista, Francisca Júlia fora convidada a ingressar na Academia Paulista de Letras, que se formava. Recusou. Alguns anos depois, seria homenageada com um busto na Academia Brasileira de Letras. Quem era, afinal, a mulher do telegrafista do Lajeado? Francisca Júlia era a maior poetisa do parnasianismo brasileiro, reconhecida e aplaudida por escritores como Olavo Bilac. Publicara seus primeiros poemas em jornais de S. Paulo. Em diferentes momentos recolheu-se à vida doméstica, coisa que fez também depois do casamento. Era uma mulher bonita, de viso triste, reflexiva. Sua poesia é densa de competência linguística. Trabalhava com maestria a língua portuguesa. Em seus versos é claro o empenho em fazer de nossa língua instrumento de elaborada criação estética.
Com a descoberta, em 1916, de que o marido estava tuberculoso, tornou-se depressiva e mística. Filadelfo morreu em 31 de outubro de 1920. Após o enterro, Francisca Júlia tomou uma overdose de narcóticos e morreu na manhã do dia seguinte. Seria sepultada no Cemitério do Araçá, no dia de finados. Ao seu funeral compareceu a fina flor da intelectualidade como Guilherme de Almeida, Paulo Setúbal, Mário de Andrade (que criticara sua poesia), Oswald de Andrade, Di Cavalcanti...
São os intelectuais de São Paulo que decidem propor ao governo do Estado a feitura do túmulo da poetisa, o que tramita no legislativo por iniciativa do senador estadual Freitas Vale, da famosa Vila Kyrial, na Rua Domingos de Morais, lugar de encontro de artistas e escritores. Victor Brecheret esculpe para o túmulo, em mármore de Carrara, a bela “Musa impassível”, título de um poema de Francisca Júlia. A obra está hoje na Pinacoteca do Estado, restaurada. Uma réplica em bronze substitui-a no túmulo do Araçá, como a murmurar: “Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
em tua boca o suave e idílico descante”.
Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e ciências Humanas
 da Universidade de São Paulo

Voltando...
2020




Deixo aqui um Poema dessa grandiosa figura literária....



Supremo


Os teus olhares feitos de carinho,
De Extrema-Uncção, de mysticos luares,
Têm na expressão, ó santa dos Altares,
A velludosa maciez do arminho.


E no doce brilhar – áureo caminho –
A profundeza intérmina dos mares…
Têm na expressão, ó Santa, os teus olhares
A velludosa maciez do arminho.


São puros como as Hóstias dos Sacrários,
têm o brilho divino de Stellarios,
quando me fitam numa uncção extrema.


São rútilos santelmos guiadores,
são as dhulias lithurgicas das dores,
da minha Crença immácula e suprema!


Fonte: Internet Biblioteca Digital




IP Casa de Oração - Rua Moreira Neto, 283 - Guaianases - São Paulo

Agregadores

Medite!

Gióa Júnior