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terça-feira, maio 10, 2011

Gatilho... Eu não tenho mãe.E daí?

Não, eu não tenho mãe,



Não tenho a tal primeira lembrança doce de um perfume feminino,
Não tenho na memória uma marca que o tempo não apaga.
Não sei identificar um sentimento quase divino.
Sentimento divino para mim é o amor de Deus.

Dia das Mães para quê?
Faço parte de um batalhão de pessoas que não compreende
Este amor, famoso, que enfeita até comercial de margarina,
Que estampa revista de Testemunha de Jeová.
E sei lá mais o quê.

Para mim dia das mães é pura perda de tempo.
Comemorar o quê?
Se faço parte daqueles que só não foram abortados porque o inferno é quente,
Ou porque ela tinha medo de morrer no processo,
Se sou uma daquelas que só não foram esquecidas no hospital
Porque a enfermeira levou até a porta,
Que não teve como destino a lixeira porque a língua dos vizinhos é grande.

Sou solidária com aqueles que, irmãos de dor
Constroem com as pedras que lhes atiram um castelo forte, um esconderijo.

Sou solidária com aqueles pobres seres, que como eu não permitiram
Que o frio do quarto de serviços, onde dormiam entre a máquina de lavar
E o carrinho de pedreiro, apagasse a certeza que ainda haverá algo novo a viver.
Que os pratos de comida velha e endurecida não lhes tiraram a certeza de que somos gente.
Não há nada que outro faça que apague o brilho das estrelas que brilham em nós.

Não tenho mãe e daí?
Não estou só no mundo.
Existem outros como eu, que não sabem o que perderam, porque não tiveram.
E o que pregam sobre um ser quase etéreo a nos cobrir de beijo,
É como as lendas de lobisomem, mula sem cabeça e saci pererê.
Os outros dizem que existe, mas eu mesma nunca vi.

Não tenho mãe e daí?

O que me conforta mesmo é que Jesus já tinha dito antes,
Quando sua mãe e pai te desamparar o Senhor te acolherá.
Estou aqui, no meu cantinho, encolhida sobre as Asas do Altíssimo
E não existe outro braço que eu queira para me abraçar.


Elisabeth

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