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segunda-feira, junho 21, 2021

Retorno de Resenhas em Conto - Thiago Costa

 Quando há retorno...

Ler um texto, como leitor e não como profissional da Literatura é uma tarefa difícil para alguns. Para mim uma leitura só é aproveitada se conseguir captar o texto sem teoria imediata. E, acredito que seja por isso que algumas de minhas resenhas em Concursos Literários sejam tão densas. Minhas primeiras percepções são sempre leves, de intertextualidades imediatas.
Entretanto, minha segunda leitura, já analítica, segue um padrão investigativo que acompanha minhas primeiras impressões e suas imediatas conexões com outros textos e, obviamente, as teorias. Aqui segue outro diferencial. Procuro escapas da Academia nesse processo.

Alguns de meus trabalhos são mais próximos, teoricamente, do que o autor utilizou na sua produção do que exatamente o que se espera de uma Análise Literária padrão. Consequentemente o resultado é outro. Muitas vezes muito mais denso do que se espera de uma professora de Literatura convencional. Mas, quem me conhece sabe que convencional mesmo é só meu nome, que amo. Minhas práticas de leitura, ensino e análise são todas padronizadas em minha obsessão em ser melhor para mim mesma. Sim, analiso procurando competir comigo mesma, só assim minha investigação se aprimora.

Esperando que resultados? — alguns interpelarão. Esperando meu melhor. Sempre.

E quando você compromete tempo e esforço em um texto e recebe um retorno magnífico, então, a compensação é dupla. E essa edição do Concurso Literário do Entrecontos foi uma experiência frutífera. Tudo bem que meus prediletos não ganharam os três primeiros postos e, um conseguiu a 14ª posição — fato com o que não me conformo. Mas, fora isso, tive experiências maravilhosas e retornos grandiosos. E vou postar ao longo da semana aqui o retorno e, futuramente, três de minhas melhores análises. Quem quiser ler todas é só seguir o enlace do Desafio e ler todos por lá.


Minha primeira manifestação é sobre o retorno obtido através das redes sociais do escritor Thiago Castro, autor do Conto "Manuscritos de um Motorista de Aplicativo". Participando com o pseudônimo Abel Linklater, Thiago postou nos grupos do Desafio e no próprio site do Entrecontos seu agradecimento por meu comentário em seu conto. 

Autor de livros diversos, que você pode encontrar contatando o autor diretamente por aqui, Thiago tem boas participações e desta vez é o Campeão. Você pode contatar seu perfil biográfico e obras aqui.





quarta-feira, março 15, 2017

Pássaro Azul - Regina Ruth Rincon Caires

Semana que passou recebi de presente dois textos. Pássaro Azul e Estrangeiro. A autora?
  Regina Ruth Rincon Caires.
E o que eu achei deles?
Belíssimos. Ambos entrarão para minha plataforma de aula social. Mas hoje vou falar do primeiro.

Pássaro Azul


Pássaro Azul é um relato, com narrador padrão na terceira pessoa e, no entanto, o texto deixa tanto à interpretação do leitor. Abusa da forma escrita elaborada, mas tem um vocabulário acessível, amplo. A repetição do verbo girar, no infinitivo, em uma das frases abre a interpretação extratextual e abarca outros termos já citados no texto: desconforto; invasiva claridade; holofote; desconforto;  descompasso.  A palavra diferente, separada em sílabas, estabelece uma comunicação com um sofrimento e logo depois a autora apresenta o Estigma, e o faz em força de sentido, dando voz e personalidade a ele:  palavra Estigma. E aqui podemos nos lembrar que normalidade é um fenômeno criado pelo homem e que por ela, estabelecemos valores de superioridade e inferioridade:

[...] Somos nós (os normais) que construímos as teorias sobre o estigma,  elaboramos uma ideologia que justifica a inferioridade do outro, baseada na idéia que representam para a sociedade. Muitas vezes essas teorias representam racionalizações de animosidadades, baseadas em diferenças como aquelas de classe social”(GOFFMAN, Irving, Estigma, p.5).

Ao apresentar o termo codinome, Regina grava com fogo algo doloroso nos olhos e pele do leitor e reforça a ideia do Estigma, como apresentada no fragmento acima. E continua construindo seu campo de significados com frases como: ecoou nos pensamentos; inocentes nove anos; reiteradamente dita. O texto, sem apresentação externa, já mostra a dor que esse narrador apresenta, e,  que essa dor pertence à um Universo específico. Ao entender de que se trata, ele se torna um hino, uma voz que representa o universo Azul, posto no título do Conto.

De forma  simples, a autora leva seu narrador a fazer redundâncias perfeitas, dando uma veste de poesia ao seu texto. Só que se engana quem crê que ela introduz esse recurso poético como uma marca estilística. Ela ainda está reforçando o campo semântico ao dizer os dois conjuntos  sequenciais: lábios/falavam; olhos/fitavam. E então ela quebra, fazendo um retorno ao tema do estranho: gestos de espanto/ dirigiam. E, é quando ela engana o leitor, apresentando-lhe uma verdade incômoda, que está ali o tempo todo: "E, ironicamente, ele não falava. Ouvia silenciosamente, mudo." 
Essa ironia ela coloca o tempo todo. Quando começa falar que os brinquedos giram no ar, ela apresenta carros e trens, objetos da terra. A criança que gosta tanto de girar e voar, não encontra no texto nenhum objeto do ar. Falta-lhe aeronaves, pipas, balões e afins.  Tudo gira, não voa. É uma busca incessante de liberdade, que no ambiente de casa, dá sempre no mesmo lugar, por isso gira, é cíclico.
Ele só é livre à beira do precipício, quando observa, ansioso, o voar dos pássaros, que descem, sem mover as asas rumo ao chão e quando próximos da terra, abrem-nas e sobem em um voo que maravilha a criança. Incrivelmente é a figura paterna que lhe permite esses momentos de prazer e que também os interrompem. E a entrada do menino ao mundo, mais uma vez é um retorno incomodo, como foi o nascer: confuso; complicado; incômodos,  são as palavras que permeiam o instante do retorno. 
O ensaio para a liberdade é um exercício indolor de contínua vivência. E o final, surpreendente, suspenso e real.
Um texto magnífico para falar de uma situação que aflige muitas famílias: o Autismo.
Ao ler, percebemos a dor de quem vive, de quem é e de quem conhece um autista e não sabe como chegar de fato a ele. Retrata as dificuldades diárias dos dois lados, sem florear uma realidade desgastante. Texto excelente. 
Indico a todos.  

SERVIÇOS
Em breve em uma livraria próxima de você. O texto faz parte de uma Antologia.

PS. Ainda vou montar um plano de aula sobre ele.
PS. 2. Texto será utilizado por outra professora, aqui de Manaus, com Ensino Fundamental e Médio.

IP Casa de Oração - Rua Moreira Neto, 283 - Guaianases - São Paulo

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Gióa Júnior