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terça-feira, março 12, 2019

Zeca-dama, de Erasmo Linhares

Zeca-Dama – Erasmo Linhares

                   Não, senhor, desarme essa cara de malícia. Não é nada do que o senhor está pensando. Sou macho e muito macho. Até hoje o cabra que duvidou disso, levou o troco certo na hora. Mas lhe digo que já fui dama afamada. Melhor do que muita mulher de hoje. 

Quando cheguei nas brenhas do Ipixuna, mulher que é bom não havia. Tudo era homem, só homem. A maioria cearense como eu e como eu vieram na ilusão de enricar com a borracha — aquela enganação toda que andaram espalhando lá pelo Nordeste. Vinham como boi, amontoados no porão e no convés dos navios, largando pra trás a terra, lavoura, casa, mulher e filhos. Comigo foi um pouco diferente. Não escondo que tinha lá meus desejos de encher os bolsos de muitos contos de réis e um dia voltar pro meu sertão e fartar de comida a mulher e a filharada. Desculpe se estes olhos depois de velhos deram pra chorar, mas aqui no fundo do peito ainda dói uma querença. Eu conto continuado. De veras eu vim mesmo foi fugido. Lá no sertão onde eu morava, por causa de umas terrinhas mixes, destripei um cabra safado na ponta da peixeira e quando a polícia deu vau, embarquei no Baependi junto com um magote de outros homens, a maior parte, como eu, com alguma morte nas costas. Um horror, meu senhor, uma coisa muito triste de ser lembrada. 

Em Manaus jogaram a gente numa tal de Hospedaria de Flores. Todo mundo espremido nuns quartinhos. Tinha dez onde só podia caber cinco. De tanta gente, nunca faltava uma fila enorme às portas das privadas, principalmente porque a gente desacostumada do pirarucu e da farinha d’água que se comia todo santo dia, andava quase sempre com desmancho. Um desespero, pode crer. Tinha gente que não aguentava na espera e fazia a coisa ali pelas redondezas, atrás das cercas, nuns matinhos que cresciam ao redor, e, por isso, o ar vivia empestado. Depois de uns dois meses separaram a gente em lotes e mandaram uns pra cá, outros pr’ali. A mim me mandaram pro Ipixuna, nas brenhas onde não morava quase ninguém. Não reclamei nem pechinchei. Quanto mais longe melhor. De perto, um perto muito longe, só Eirunepé de um lado e Cruzeiro do outro. Cheguei num dia e no outro me mandaram pro centro, com o Dorca — um cabra nascido por aqui mesmo, meio gente, meio índio, mas um camaradão. Duro, meu senhor, duro foi acostumar naquele mundão de mato vazio de gente e com a doideira daquele trabalho de escravo. Acordar antes do sol e sair pelo mato raspando casca de seringueira, pendurando tijelinha, comer só por comer, enganando estômago com ipadu, e depois voltar pelo mesmo caminho, recolhendo o leite, correr para a barraca e começar a defumação. Os seringueiros antigos se riam da gente, da nossa falta de jeito. Conto sem ter vergonha – muitas vezes chorei, escondido do Dorca, e amaldiçoei o dia que deixei a minha terra. Mas tudo no começo é assim mesmo. Não há nada de tão ruim que a gente não se acostume. E eu e os outros – os brabos, como a gente era chamado -, acabamos nos acostumando. A vida no seringal não é sopa, mas também tem os seus momentos. 

Tinha o sábado. O sábado, meu senhor, era o nosso dia. Quando a gente voltava do barracão do gerente, tratava logo de descarregar o rancho, tomar banho e num instante estava na canoa, vestido de limpo, chapéu, todo emperiquitado, e toca a remar para casa de Mestre Felisberto. Era a festa, a festa que a gente esperava toda a semana, num desassossego. Tinha música, sim: a rabeca de Mestre Felisberto, o banjo do Curica e mais o Zé Preto batendo o compasso com duas colheres enganchadas nos dedos. Mas, como eu já lhe falei, mulher que é bom não havia. Por isso dançava homem com homem e foi aí que eu ganhei fama. Experimentei a primeira vez só pra dar gosto ao Dorca, companheirão que me ensinou a cortar seringa, com paciência de santo. E quando começamos a dançar, os outros foram parando abestados, olhando nós dois saracoteando pela sala. Desde aquela noite fiz nome e renome. Não me lembro mais quem inventou a moda, mas os homens que dançavam como dama amarravam um pano na cabeça, para diferençar dos outros. Um dia, um sujeito quizilento chamado Procópio, entendeu que a gente tinha de pintar os beiços com urucu e de vestir maria mijona. Pra dar mais sensação, como ele disse. Só não matei o filho duma égua na horinha, porque os outros não deixaram. Mas nunca mais dancei com aquele corno. Depois eu mesmo inventei de calçar sapatos tênis para dar mais leveza nos pés. Sim, lhe digo, havia outros homens que também dançavam como dama, mas nenhum como eu. Tanto que uma vez houve uma briga de dois cabras por causa de mim. Foi preciso eu arriar as calças e mostrar os possuídos e gritar que eu era homem e muito do seu macho e não ia permitir que dois safados brigassem com ciúme de mim, como se eu fosse mulher ou foboca, que Deus me livre e guarde. Mesmo assim eu não chegava pra quem queria. Tinha noite de gastar quase toda a sola do meu tênis de tanto arrastar os pés no chão de terra. Uma coisa de doido. Só parava pra tomar uns goles de cachaça e assim mesmo aqueles cabras ficavam todos me cercando e de olho vivo pra me pegar primeiro. Não, não ria, homem fazer vez de dama não é coisa pra qualquer um. Desculpe que eu lhe diga, mas é preciso muita arte. Tem que ter o corpo leve e os pés ligeiros, molejo na cintura, balanço de perna e sentido calculado. Tem de ser uma pluma e adivinhar de véspera o movimento do cavalheiro. Ainda hoje, por todas estas bandas, ainda me conhecem como Zeca-Dama. Já lhe pedi, não faça cara de malícia. Agora eu sou um velho, mas ainda sei tirar desforra. Ninguém nunca duvidou da minha macheza, porque todo mundo sabe que eu, com uma faca na mão, sou o próprio capeta. Hoje mora muita gente por essas beiras e tem muita mulher. Nas festas, às vezes, tem mesmo mais mulher do que homem. Mas nenhuma dança como eu, naqueles tempos. Se não fosse o diabo do reumatismo que me amolenga as pernas e me endureceu as cadeiras, eu era capaz de lhe mostrar. Dou-lhe minha palavra. Pergunte ao Dorca, ele mora ali no primeiro sítio à esquerda, descendo o rio. O Dorca não me deixa mentir. Boa noite, passe bem.

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