Guaianases velho de guerra
Olá amigos leitores e seguidores da Revista Biografia! Estava
com saudades de escrever para vocês. Algumas semanas de férias compulsórias me
fizeram ficar distante da História da minha São Paulo querida.
Hoje, para compensar, vou contar-lhes mais uma História
de Bairro do meu Estado querido. Já vou pedindo perdão pelos possíveis apegos e
sentimentalismos, pois vou falar de um lugar que conheço e onde vivi por quase
40 anos: Guaianases.
Para começar, deixa eu contar uma curiosidade...
Anos atrás as pessoas morriam de medo dos moradores
deste bairro, mas não era pelo perigo, comum, atribuído as pequenas e grandes
cidades, era por considerar que ali não havia gente inteligente. Os povos
centrais, donos de empresas e patroas, acreditavam que éramos todos
descendentes de índios – e acho que acreditavam ainda mais, que fôssemos todos
canibais, pois bastava falar que era morador de Guaianases que as portas se
fechavam. Ainda alcancei esta loucura. Meus amigos iam procurar emprego e diziam
que moravam na Parada XV de Novembro.
Com esta loucura bairrista, nós também acabamos criando
nosso próprio sentimento bairrista, passamos a cultivar o orgulho de sermos de
Guaianases.
Guaianases nasceu antes do que se diz que nasceu e teve
grande importância para a História de nosso Estado. Nas Bibliotecas mais
antigas e na da Câmara Municipal de São Paulo pode-se encontrar relatos
anteriores ao dia comemorado como o de sua fundação, mas nosso Brasil tem a
mania horrorosa de só acreditar que um bairro existiu a partir de uma missa
realizada, assim sendo, nossa verdadeira história acaba perdida.
Infelizmente para Guaianases e para quase todos os
bairros e cidades brasileiras, muito de nossa história é manipulada pelos
interesses de A ou B.
Guaianases, antes de sua formação oficial, era um
aldeamento pequeno onde as pessoas em viagem para Santos e outros lugares,
paravam para trocar seus cavalos, fazerem a sua higiene e se alimentarem. Uma
pessoa famosa fez isto algumas vezes por ali: Dom Pedro I, indo de visita a
Marquesa de Santos. Por certo outros assim o fizeram, embora a História faça
questão de esquecer.
Antes de sua fundação oficial, também, Guaianases era
local de moradia indígena e tem seu nome atribuído a um aldeamento destes, o
povo Guaianás.
Guaianases é formado por diversas nações e tem sua
História envolvida com diversas outras histórias. Em grande parte deve sua
formação a três povos específicos: os indígenas, os italianos e os nordestinos.
Por volta dos anos 90 o artista gráfico Natalício Vigo chegou a fazer uma
estátua com estas três figuras que foi colocada na entrada do Bairro, perto do
Jardim Helena. Eu até ganhei uma réplica quando da realização do Seminário “Guaianases
tem Solução”, mas não tenho mais, por causa de um acidente doméstico.
Quando falamos que três povos específicos formaram este
bairro, acabamos sendo um pouco injustos, pois há grande contribuição de outros
povos em sua formação. Há influência japonesa, chinesa, alemã e de muitas outras
nacionalidades. Há, também, influências de outras famílias que nem sempre
aparecem nos documentários, tais como: a família Mariano, Carmo, Leite, Chabi e
muitas outras.
No fim dos anos 90 e início de 2000, Guaianases contava
com dois milhões de habitantes, números agora manipulados para evitar que o
bairro vire um município (um desejo antigo de muitos moradores locais). Este número pode ser sim mudado, para
referenciar minha informação cito que só na Cidade Tiradentes, que possui em
média um terço dos moradores do bairro, moram mais de 800 mil famílias – a
Cidade Tiradentes é um complexo de habitações nada modernas, feitas a partir da
construção de prédios com cinco andares, sem elevadores, em um lugar, outrora,
ermo e afastado do centro, mas que agora cresce assustadoramente. Além dos tais
edifícios, há construções, feitas através mutirões, de casas de andares e,
também, algumas invasões, algo muito comum nos últimos anos-.
Guaianases também tem algo curioso, quase toda a casa
tem inquilinos, algumas com mais de três famílias. As pessoas sublocam suas
casas (por menores que sejam) e isto, na maioria das vezes, se deve pelas
necessidades financeiras, afinal viver em Guaianases é caro, pois é um bairro
longe das empresas e comércios específicos. Essa afirmação também é um pouco
injusta, temos aqui um bom Comércio e contamos com Indústrias locais. Temos
escolas particulares e até Faculdade no Bairro, tudo bem que não é, ainda, uma
Federal, mas sonhamos com isto. Se podem construir cadeias públicas, por que
não construir Universidades...
Guaianases tem lenda própria. Embora muitos acreditem
que não seja lenda e sim uma história real, horrorosa por sinal, e que prova o
quanto nós, seres humanos, podemos ser bárbaros, esta relacionada a um das
primeiras Capelas do Bairro – a Igreja de Santa Quitéria. Diz a “lenda” que Santa
Quitéria era uma escrava fugitiva das fazendas existentes na região e pertencentes
aos padres Carmelitas, que foi perseguida, capturada e sacrificada selvagemente
no mesmo local onde foi construída a Igreja.
O aniversário oficial de Guaianases é comemorado no dia
três de Maio, dia de Santa Cruz, data que foi celebrada a primeira missa, em
1861, mas é de conhecimento histórico que desde 12 de outubro de 1580, foi
autorizado o aldeamento de Guaianases e região. Esse aldeamento foi iniciado
pelo Bairro de São Miguel Paulista, pelos índios Ururaí. Jerônimo Leitão, o
Capitão desta Capitania em São Vicente, foi quem autorizou este aldeamento com
condições de sesmarias.
Atribuem aos italianos e espanhóis a formação do Bairro,
pois foram eles que propiciaram o crescimento financeiro e sabemos que o que
manda é o dinheiro. E é desta forma que é vista a formação de nosso bairro,
pelo prisma da entrada de grandes quantidades de dinheiro no Bairro.
Não desmerecendo ninguém vou citar, de acordo com as
informações mostradas nos poucos livros que se dignam falar sobre a formação de
Goianases, as origens das primeiras fontes de rendas: Olarias e Pedreiras;
Derrubada de Árvores para a construção de casas indústrias e comércio nos
bairros da Móoca, Belém, Pari, Bom Retiro, Brás e adjacências; Comércio de
secos e molhados; Cultivo de produtos agrícolas e agropecuários, além de
ferreiros e carpinteiros. Guaianases possuía, como todos os bairros
considerados desenvolvidos, os fotógrafos de família, principais responsáveis
por algumas das poucas fotos que sobreviveram ao tempo. Essas “fotos
registros”, se o Estado nada fizer, será perpetuada como propriedade exclusiva
da Eletropaulo Metropolitana. Estes fotógrafos só faziam retratos de/para
pessoas com bom poder aquisitivo, pois este era um trabalho caro para os
demais.
Conta-se que os primeiros loteamentos surgiram na
década de 1920, como Vila Iolanda (1926), CAIC (1928), Princesa Isabel (1928),
parte da fazenda Santa Etelvina (1926). Nesta mesma época surgiu um pequeno
núcleo de imigrantes alemães e austríacos, em número de doze famílias que
viviam na região do Santa Etelvina. Outra curiosidade: Guaianases tem dois
loteamentos com este nome, Jardim Santa Etelvina, formado nas terras onde
existia esta fazenda de mesmo nome e outra vila, na Cidade Tiradentes, que
também se chama Santa Etelvina e que, também, era uma fazenda com este nome...
Guaianases tem história no Corpo de Bombeiros, a família Rulh, o comandante
Carlos Ruhl dá nome para uma das ruas da Vila Princesa Isabel, mesma rua onde
fica uma das mais antigas escolas, o Colégio Pedro Taques. A família Ruhl esta
há diversas gerações prestando serviços à comunidade através do Corpo de
Bombeiros.
A Primeira Agência de Correios foi fundada em 1873 e
demorou um pouco mais para ser ter uma delegacia, na verdade uma subdelegacia
de polícia, que foi criada só em 1895.
Em matéria de esporte surgiram duas Agremiações
Esportivas, o Atlas Lajeadense F.C, fundado em 1915 e, anos depois, em 1934,
fundaram a União F.C. Possuíam boas sedes, onde nos finais de semana,
realizavam animados baile. Estes times eram tão conceituados junto a Comunidade
local que se uniram em 1946, criando o atual Guaianases F.C. Em 1955 surgiu o
Grêmio Botafogo F.C, que está em atividade até hoje. Além do futebol, existiam
e ainda existe diversos times de bocha e muitos outros campeonatos de bocha.
Havia também Bandas de Músicas. A primeira existiu no
período compreendido entre 1915 e 1926. A Segunda Corporação Musical Lira de
São Benedito, foi fundada em 1933 e extinta em 1938. No entanto gosto musical
não acabou, a maioria das escolas mantinham sua turma de Fanfarra – quem sofria
eram os vizinhos das escolas. Eu morava perto da Rosanova e quando os alunos
começavam os ensaios, todos sofríamos, mas é sempre bom ver os pequenos e
grandes marchando no dia 3 de maio, no desfile do aniversário de nosso bairro.
Neste dia, por milagre, eles acertam as notas e fazem uma belíssima
apresentação.

Havia também uma estrada de ferro, de propriedade
particular, que ligava a Estação Lajeado à Fazenda Santa Etelvina – a que
ficava onde hoje é a Cidade Tiradentes. Esta estação foi instalada ali em 1908
para transportar lenha, tijolos, pedras, carvão e produtos agrícolas da região
da Passagem Funda; existia também um bondinho, que corria nestes trilhos e era
utilizado para o transporte de passageiros. As ruas centrais tinham, instalados,
lampiões que eram acesos no início da noite e apagados pela manhã.
Guaianases também mandou um soldado para guerra. Na
verdade o “Otelo Augusto Ribeiro” era um pracinha que morreu nas terras da
Itália. Lembro-me que sempre me perguntava quem era a pessoa que dava nome a
Rua da Biblioteca e descobri anos depois a história deste herói que tombou nos
campos distantes de nosso país, de nossa cidade...
A primeira loja de móveis - Móveis São João – foi
instalada em 1952. O seu João era uma figura conhecidíssima do bairro.
Conversávamos com ele quando íamos a Biblioteca. A loja funcionou por diversas
décadas no mesmo endereço.
Guaianases tem sua importância literária, por anos
existiu o Espaço Cultural onde aconteciam saraus e encontros de jovens. Era um
espaço improvisado que beirava a linha do trem e ali os jovens vivam seus
momentos de cultura. Antes disto, morou no bairro a poetisa Francisca Júlia,
mas já falei dela aqui na Revista Biografia em outra oportunidade. Com a
presença dela no bairro, ele foi muito visitado por diversos escritores e
poetas contemporâneos desta escritora maravilhosa, que foi esquecida devida da
ignorância da maioria das pessoas que acreditavam que ela se suicidou e,
também, pelo grande interesse em se manter a poesia como um marco de domínio
masculino.
Temos em nossa história outras presenças marcantes e
conflitantes. O senhor Jesus Teixeira da Costa e sua esposa são exemplos disso.
Ele foi um grande defensor dos interesses do bairro e hoje dá nome há uma
praça, ao Hospital Geral do bairro e que, por causa de seu nome, tem muitos
admiradores e inimigos, mesmo já estando morto.

Outro grande líder e político de Guaianases foi
Saturnino Pereira. Saturnino Pereira foi por anos o mais influente morador da
região. Era um homem festeiro e realizava grandes celebrações, inclusive a
Festa de Santa Cruz. Nestes dias apareciam pessoas de todos os lugares, algumas
vinham a cavalo e acampavam pelo campo junto com seus animais, tudo para
participarem desta festa. Havia, como em todas as festas de então, brinquedos
de prenda onde as pessoas enfrentavam diversas dificuldades para conseguirem um
presente qualquer. A mais famosa desta brincadeiras talvez seja o pau de sebo.
Nas festas de Saturnino Pereira o pau de sebo era erguido e as pessoas
participavam, animadas, destes folguedos. A festa durava três dias e três
noites, tendo Saturnino como principal patrocinador. Ele matava bois de sua
Fazenda e oferecia a todos. Era uma festa memorável. Outra festa que Saturnino
patrocinava era o Natal. Na véspera ele distribuía, junto com sua família,
roupas, sapatos e brinquedos para as crianças carentes da região.
Outro morador ilustre de Guaianases é o escritor e
professor universitário José de Souza Martins, que ao longo de sua história
jornalística tem publicado crônicas e fatos de nosso Bairro na Folha de São
Paulo. Ele é um dos que contam como era de fato os festejos de Saturnino
Pereira. Saturnino aproveitava seu prestígio político para conseguir trazer
melhorias para o bairro, foi amigo do prefeito Pires do Rio e do governador
Carlos de Campos. Como benfeitor do bairro, em 1927, pediu a Antônio José dos
Santos que construísse, em seu próprio terreno, um prédio que seria usado como
Grupo Escolar. Prédio este que foi alugado pelo governo para uso escolar, como
era o projeto, tendo por diretor Arlindo Rodrigues de Oliveira.
Saturnino foi juiz de paz e até delegado de polícia e
intermediou muitas conquistas que chegaram até nós, tais como a luz elétrica, a
instalação de linha de ônibus e muitas outras benfeitorias.
Em 1950 ele cedeu outro pedaço de terra para a
construção de mais uma escola. Foi construído ali uma escola de madeira, onde
hoje tem uma escola de alvenaria que leva seu nome, ao lado da Estrada do
Iguatemi.
Outro que teve negócios e família em Guaianases foi o
empresário da construção civil Vicente Matheus Bathe, mas conhecido por ter
sido presidente de um determinado time de futebol de São Paulo, do qual me nego
até digitar o nome, como boa palmeirense que sou. Bem, dado sua personalidade
divertida e suas tiradas originais e propositais. Todos sabem a quem me refiro
e de qual time estou dizendo, acho que até na China, se é que algum chineses se
dignam a perder tempo lendo meus textos...
Outra figura peculiar em Guaianases era o vendedor de
quebra queixo. A vida inteira eu o vi com aquela bandeja na cabeça tocando seu
tamborim e gritando ''Olha o quebra queixo''. Tive a honra de conversar com ele
na época do Seminário Guaianases tem solução. Ele apoiou a realização deste
Projeto e esteve presentes em todos os dias do evento. Deixando as ruas órfãs
de seu delicioso doce enquanto acontecia este evento importante para nosso
bairro.
A figura marcante em Guaianases é sem dúvida o Senhor Radiante.
João Radiante viveu todos os seus anos em Guaianases e planejava escrever um
livro sobre a imigração italiana e sua importância para a formação dos bairros
de São Paulo. Ele faleceu em 2008 e não sei se realizou seu antigo sonho. Ele
era o contador mais antigo do bairro e até hoje seu escritório de Contabilidade
funciona em Goianases. Ele aposentou-se e passou a responsabilidade para um de
seus sobrinhos. Ele também foi um dos criadores dos primeiros barzinhos do bairro,
o qual deixou de administrar quando se tornou contador.

Uma das Lojas de Variedades mais antiga é o Bazar Xodó.
Minha avó nos levava lá, quando éramos pequenos, para comprar desde cotonetes
até presentes para noivas. Hoje a Loja é administrada pelos filhos dos antigos
donos e tem de tudo, mesmo parecendo pequena. Por falar em Loja, havia uma
livraria em Guaianases, era da família Zuppo, a Musical, comprei muita revista,
disco e livros lá. Hoje ele tem uma Banca de Revista perto das Lojas
Pernambucanas. O senhor Zuppo é uma pessoa agradável, muito educado e
sorridente. Fiquei triste quando ele fechou a loja. Outro comércio que marcou
época foi o restaurante Piu Bella. Foi a primeira pizzaria que conheci na vida
e me divertia indo lá, se não para comer, para conversar com os amigos na
Pracinha ali perto. A lanchonete mais antiga, sem dúvida, é a Pastelaria da
Estação, levei anos namorando o dia que ia entrar lá e a primeira vez que lá
fui, foi com minha amiga e irmã Ivete. Que pastel delicioso!
Guaianases era um bairro simples, com ruas arborizadas,
jardins floridos e mulheres a conversar na calçada, hoje é um bairro como outro
qualquer, com os mesmos problemas das grandes cidades e que mantêm aceso em si
algo bucólico, como se tivesse, ainda, algo bom para acontecer.
Fontes:
Elisabeth Lorena Alves - Alguém que não
gosta de ficar parada, mas que estaciona frente a um bom livro e sonha com as
palavras. Posta no Elisabeth Lorena Alves ( www.eliselorena.blogspot.com.br)